O LinkedIn como palco e a reputação como personagem

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Profissional em ambiente corporativo semelhante a um palco, usando um selo simbólico de reconhecimento enquanto luzes e sombras sugerem reputação performática e autoridade encenada no LinkedIn.
Quando o reconhecimento vira performance, a reputação passa a existir apenas enquanto há plateia

Quando o “Top Voice” vira figurino e a autoridade perde lastro

Durante muito tempo, ser Top Voice no LinkedIn significava algo. Era um sinal de que aquela pessoa tinha voz relevante, leitura consistente e contribuição real para o debate público dentro da plataforma. Não era comum. Não era automático. E justamente por isso carregava valor reputacional.

Esse tempo passou.

Hoje, o selo se espalhou de tal forma que perdeu força simbólica. Quando todo mundo vira Top Voice, a pergunta deixa de ser “quem merece?” e passa a ser “qual comportamento o algoritmo está premiando agora?”. O que antes parecia reconhecimento virou mecânica. E reputação, quando vira mecânica, começa a inflacionar.

O LinkedIn, aos poucos, deixou de ser apenas uma rede profissional e passou a funcionar como um palco corporativo. Um espaço onde narrativas bem ensaiadas performam melhor do que trajetórias consistentes. Emoção engaja mais que coerência. Vulnerabilidade calculada rende mais alcance do que decisões difíceis. O aplauso vem rápido, mas quase sempre termina ali.

O problema não é a plataforma. É o jogo que se organizou dentro dela.

O selo de Top Voice, que deveria ser consequência, virou objetivo estratégico. Passou a premiar quem entende o ritmo da rede, não necessariamente quem sustenta o discurso fora dela. E, quando isso acontece, a reputação deixa de ser construída pelo impacto real e passa a ser moldada pela estética correta.

Há outro ponto que chama atenção nesse processo: a hipocrisia silenciosa que se instala depois da conquista do selo. Não é raro ver pessoas que se tornaram Top Voice passarem a criticar o próprio LinkedIn, o algoritmo, a superficialidade, o teatro. A crítica pode até ser válida. Mas ela só aparece depois que a visibilidade foi conquistada.

Antes do selo, o silêncio. Depois do selo, a lucidez.

Esse movimento diz muito sobre como a reputação está sendo tratada: como um meio, não como um fim. Primeiro se joga o jogo. Depois se aponta o dedo para o tabuleiro. É fácil criticar o palco quando você já saiu dele aplaudido.

No meu caso, uso o LinkedIn com frequência, acompanho debates, publico, observo. Nunca fui Top Voice e confesso que não sei exatamente quais critérios poderia tanto me incluir ou excluir. Mas talvez essa seja a questão central: quando nem quem está dentro consegue entender por que alguém é premiado, o selo já perdeu seu poder de legitimação.

Reputação não pode depender de critérios opacos. Autoridade não se sustenta em badge. E credibilidade não nasce de um rótulo concedido por engajamento previsível. O algoritmo reconhece padrão de comportamento. O mercado cobra coerência.

Quando símbolos de prestígio se banalizam, eles deixam de distinguir. Viram figurino. E figurino não prova caráter, não garante entrega, não sustenta decisão difícil. Só ajuda a compor o personagem.

O LinkedIn continua sendo uma ferramenta poderosa. Mas quanto mais ele premia performance, mais o leitor atento aprende a desconfiar. Porque fora da rede, no contrato, na crise, no conflito real, não existe selo que sustente incoerência.

No fim, vale a regra que sempre valeu:
reputação não é o que aparece no perfil.
É o que se confirma quando o palco se apaga.

PODCAST

1. De que forma a busca por selos digitais compromete a autenticidade da autoridade?

2. Como o conflito entre performance algorítmica e impacto real afeta a credibilidade profissional?

3. Qual é a diferença entre construir uma reputação sólida e encenar personagens corporativos?

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