Bastidores da produção de calçados de luxo revelam cadeia industrial complexa e colocam Brasil em posição estratégica no mercado global

0
6

Da seleção rigorosa do couro aos testes técnicos e auditorias internacionais, fabricação de produtos premium exige processos sofisticados pouco conhecidos pelo consumidor final

Para o consumidor, um sapato de luxo normalmente representa design, exclusividade e status. O que permanece fora do radar da maior parte do público é a complexa engrenagem industrial necessária para colocar esse produto nas prateleiras globais. Antes de chegar às lojas, um calçado premium passa por uma cadeia altamente técnica que envolve desenvolvimento de materiais, controle químico, validação de desempenho, auditorias internacionais e padrões rigorosos de qualidade.

Em um cenário de maior exigência por qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade, a produção de calçados de luxo se tornou uma operação global cada vez mais sofisticada e o Brasil tenta ampliar seu espaço nessa cadeia bilionária.

Segundo relatório da Bain & Company em parceria com a Fondazione Altagamma, o mercado global de bens pessoais de luxo fechou 2025 em cerca de €358 bilhões, mantendo calçados, bolsas e acessórios entre os segmentos mais relevantes da indústria premium, mesmo diante da desaceleração global do consumo de luxo.

Por trás desse mercado, a fabricação de um calçado de luxo começa muito antes da produção em larga escala. O processo pode levar meses e passa por etapas como desenvolvimento técnico do couro, ajustes químicos para garantir performance do material, testes laboratoriais, auditorias de fornecedores, validação de rastreabilidade, criação de protótipos e inspeções rigorosas antes da fabricação final.

“O consumidor normalmente enxerga apenas a marca e o produto final, mas existe uma estrutura técnica extremamente sofisticada por trás de um calçado premium. Um pequeno desvio na cor do couro, na resistência do material ou no acabamento pode comprometer uma coleção global inteira”, afirma Alexandre Santarem de Moraes, especialista em materiais e cadeia global de fornecimento da indústria do couro.

O Brasil ocupa posição estratégica na cadeia global de couro. Após registrar US$ 1,26 bilhão em exportações em 2024, alta de 12,5%, o setor encerrou 2025 com US$ 1,117 bilhão em vendas externas, segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil. Apesar da queda na receita em meio à pressão internacional sobre preços, o país segue entre os maiores fornecedores globais e avança em produtos de maior valor agregado: mais de 60% das exportações brasileiras já correspondem a couro acabado e crust, utilizados por fabricantes globais de calçados, móveis e artigos premium.

Além disso, dados da Abicalçados mostram que o Brasil segue entre os maiores produtores globais de calçados, com cerca de 890 milhões de pares produzidos por ano, mantendo polos industriais relevantes em Novo Hamburgo, Campo Bom e Franca.

Apesar da força produtiva, Alexandre Santarem de Moraes afirma que o país ainda enfrenta desafios para capturar maior valor agregado no segmento de luxo. “O Brasil tem matéria-prima de altíssima qualidade e capacidade técnica relevante, mas ainda exporta muito couro e poderia avançar mais na produção de produtos acabados premium para marcas globais”.

Com mais de oito anos de experiência profissional na China, ele acompanhou de perto o funcionamento da cadeia internacional de fornecimento para grandes marcas e afirma que a complexidade da produção aumentou nos últimos anos. “Hoje não basta entregar um produto bonito. As marcas exigem rastreabilidade, conformidade química, sustentabilidade e consistência global em todos os lotes.”

A pressão por qualidade é elevada porque o custo do erro é alto. Uma falha identificada após a produção em larga escala pode gerar devoluções internacionais, atrasos logísticos e prejuízos milionários.

Para Moraes, o Brasil tem oportunidade de ampliar sua relevância global justamente ao investir em especialização técnica e inovação. “O país pode deixar de ser apenas fornecedor de matéria-prima e se consolidar como parceiro estratégico no desenvolvimento de produtos premium.”

Enquanto consumidores seguem pagando cada vez mais por exclusividade, os bastidores dessa indústria se tornam cada vez mais técnicos, globais e exigentes e o Brasil busca ampliar protagonismo nesse mercado.

Alexandre Santarem de Moraes é especialista em materiais, fabricação de couro e cadeia global de fornecimento para a indústria calçadista. Possui mais de 15 anos de experiência no setor, incluindo oito anos de atuação na China. Ao longo da carreira, trabalhou em empresas como Tory Burch, Camuto Group, ISA TanTec, JBS Couros e atualmente atua na Quince. É formado em Tecnologia do Couro pelo SENAI CT Couro, possui graduação em Gestão de Projetos pela Uninter e MBA em Engenharia de Processos pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui
6 - 5 = ?
Reload

This CAPTCHA helps ensure that you are human. Please enter the requested characters.