Educação alimentar nas escolas: ensinar a criança a comer é também ensinar a viver

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Na foto: Merenda escolar - bolacha de água e sal e café com leite.
Na foto: Merenda escolar - bolacha de água e sal e café com leite.

Em um país onde produtos industrializados, processados e embutidos muitas vezes chegam à mesa como opção mais barata, prática e acessível, a escola precisa assumir um papel central na formação alimentar das novas gerações.

Por muito tempo, falar sobre alimentação nas escolas foi tratado como um tema secundário, restrito ao cardápio da merenda ou a campanhas pontuais sobre frutas, legumes e verduras. Mas a realidade brasileira exige uma abordagem muito mais profunda. A alimentação deixou de ser apenas uma escolha individual ou familiar. Ela se tornou um tema de saúde pública, educação, economia, cultura e cidadania.

Hoje, muitas famílias vivem um paradoxo cruel: sabem que alimentos naturais são melhores, mas encontram nas prateleiras produtos industrializados, processados e embutidos com preços mais baixos, maior durabilidade, preparo rápido e forte apelo publicitário. Salsichas, nuggets, biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo, refrigerantes, sucos artificiais e outros ultraprocessados ocupam espaço não apenas nos mercados, mas também na rotina alimentar de crianças e adolescentes. Esse cenário não é fruto apenas da falta de informação. É também resultado de uma estrutura econômica que, em muitos casos, torna a comida de verdade mais cara, menos disponível e menos conveniente. Estudos e entidades ligadas à saúde pública vêm alertando que alimentos ultraprocessados podem se tornar — e em algumas análises já se tornaram — mais baratos que alimentos in natura e minimamente processados no Brasil, ampliando a desigualdade alimentar e afastando parte da população de uma dieta saudável. Pesquisa indica que ultraprocessados podem ficar mais baratos do que alimentos saudáveis em 2026

É justamente por isso que a educação alimentar precisa começar cedo. Desde a primeira infância, a criança deve aprender que alimento não nasce na embalagem. Que uma cenoura vem da terra. Que o arroz, o feijão, a mandioca, a banana, a couve, o tomate e o ovo carregam histórias, territórios, trabalho, cultura e saúde. Que cozinhar é também uma forma de autonomia. Que escolher o que se come é uma decisão que afeta o corpo, a mente, a família, o meio ambiente e até a economia local.

A escola, nesse contexto, não pode apenas servir refeições. Precisa formar consciência.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar — PNAE é, no papel, uma das políticas públicas mais importantes do país quando se fala em alimentação na escola. A legislação reconhece que a merenda não deve ser apenas uma refeição para “matar a fome”, mas parte do processo educativo, com ações de Educação Alimentar e Nutricional e incentivo ao consumo de alimentos in natura e minimamente processados.

No entanto, entre a norma e a realidade ainda existe uma distância preocupante. Em muitas escolas públicas, a rotina alimentar ainda convive com produtos como salsicha, bolachas, alimentos processados e preparações de baixo valor nutricional, revelando que a execução do programa nem sempre acompanha sua proposta original. O próprio FNDE vem atualizando regras para reduzir gradualmente a presença de processados e ultraprocessados nos cardápios, limitando esse percentual a 15% em 2025 e 10% a partir de 2026, enquanto amplia a exigência de alimentos in natura e minimamente processados.

Outro problema é a falta de visibilidade. O PNAE existe, movimenta recursos públicos, envolve cardápios, nutricionistas, conselhos de fiscalização e diretrizes nacionais, mas ainda é pouco conhecido pela população. Muitos pais e responsáveis não sabem que têm o direito de acompanhar a qualidade da alimentação servida, que existem Conselhos de Alimentação Escolar — CAEs — responsáveis por fiscalizar a aplicação dos recursos e a qualidade dos produtos, e que a alimentação escolar deve ser pensada como direito, não como favor. Sem informação, não há cobrança. Sem cobrança, a política pública permanece distante da comunidade que deveria atender.

Quando uma criança recebe na escola um alimento ultraprocessado sem qualquer explicação crítica sobre o que está consumindo, perde-se uma oportunidade pedagógica. A escola alimenta o corpo, mas deixa de formar consciência.

Educação alimentar deveria ser disciplina.

Não como uma matéria decorativa, limitada a ensinar que “fruta faz bem” e “refrigerante faz mal”, mas como uma formação séria, progressiva e adaptada a cada fase da infância e da adolescência. Uma disciplina capaz de ensinar desde a origem dos alimentos até a leitura de rótulos, desde o cultivo em hortas escolares até o impacto dos ultraprocessados, desde a cultura alimentar brasileira até a relação entre comida, saúde pública, meio ambiente e desigualdade social.

Na primeira infância, essa disciplina poderia trabalhar o contato com os alimentos naturais, as cores, cheiros, texturas, histórias, hortas, feiras, frutas da estação e o prazer de experimentar. Nos anos iniciais, poderia abordar higiene, preparo simples, desperdício, diferença entre alimento natural, processado e ultraprocessado, além da importância da água, do arroz, do feijão, das frutas e das verduras. Nos anos finais, entrariam leitura de rótulos, publicidade infantil, comparação de preços, escolhas alimentares, impactos do excesso de açúcar, sódio e gordura, além da relação entre alimentação e doenças crônicas. No Ensino Médio, o debate poderia avançar para indústria alimentícia, políticas públicas, agricultura familiar, segurança alimentar, sustentabilidade, economia da comida e direito à alimentação adequada.

O Brasil discute tanto desempenho escolar, concentração, saúde mental, obesidade infantil, insegurança alimentar e qualidade de vida, mas ainda trata a educação alimentar como assunto secundário. Isso é uma contradição. Como esperar que uma criança faça boas escolhas alimentares se ninguém a ensina, de forma estruturada, a compreender o que está comendo?

A escola não deve apenas servir comida. Deve ensinar sobre comida.

E esse ensino precisa ter nome, espaço e permanência dentro da grade curricular.

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